São Paulo, quarta-feira, 23 de agosto de 2017 - 03:19.

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ATA DE REUNIÃO.

CONCEG - Conselho de Alunos cegos e Amigos na Universidade.

Data: 18 de fevereiro de 2004.

Participantes:
Lucas Divino de Souza (curso de Direito);
Priscila Branca Neves (curso de Psicologia);
Naziberto Lopes de Oliveira (curso de Psicologia);
Rita de Cássia Araújo (curso de Psicologia);
Fernanda Arruda Santos (curso de Psicologia);
Jucilene Braga Evangelista (curso de Psicologia);
Carla Cristina Lopes (curso de Psicologia).

No dia 18 de Fevereiro de 2004 reuniu-se o conselho acima intitulado e, a fim de discutir as melhorias que podem ser implementadas na Universidade São Marcos, deliberou sobre os seguintes assuntos:

1 - Motivo da criação do conselho:

Em virtude de discutir e buscar soluções para as necessidades em comum entre os vários alunos portadores de necessidades especiais existentes na Universidade, foi criado esse conselho, especificamente de alunos deficientes visuais. Com a disposição de elaborar propostas e buscar ultrapassar as diversas barreiras arquitetônicas e acima de tudo pedagógicas que, principalmente os alunos deficientes visuais enfrentam dentro dessa instituição de ensino.

Na primeira reunião desse conselho, foram discutidas algumas dificuldades e sugeridas algumas modificações e implementações que podem auxiliar muito na questão da verdadeira acessibilidade e adaptação desses alunos no contexto geral da Universidade.

Foram relacionados alguns problemas como a criação de uma sala de recursos especiais, modificações estruturais no espaço físico da Universidade além de algumas adaptações em procedimentos pedagógicos que serão melhor discriminados abaixo.

2 - Itens que precisamos em uma sala de recursos:

a) Precisamos de um espaço que, verdadeiramente seja acessível, ou seja, um local na biblioteca ou mesmo uma sala fora dela, que possa ser acessada livremente e pessoalmente por um aluno, sem a necessidade de impor algum tipo de incomodo a terceiros para esse fim.

b) Precisamos que o sistema operacional do computador que tem o programa "Virtual Vision" seja atualizado para a versão XP, ou seja, Windows XP, devido ao fato de que somente nessa versão do sistema operacional Windows, é que a nova versão do "Virtual Vision"pode ser instalado.
Uma vez instalado o Windows, uma nova versão do "Virtual Vision" poderá ser instalada e uma melhoria considerável de acessibilidade será conseguida, visto que a versão 4.0 desse programa é uma das mais utilizadas em empresas que empregam deficientes visuais em seus quadros de colaboradores, pois possibilita a esse usuário , uma enorme versatilidade no manuseio do computador, seja em modo local ou até mesmo via Internet.

c) Precisamos de uma máquina Braylle, dispositivo indispensável para a confecção rápida de pequenos trabalhos, provas, comunicados e tudo mais que for necessário, no código Braylle, para leitura dos alunos.

d) Precisamos que o scaner, atualmente fora de utilização, seja consertado e configurado para poder ser usado na digitalização de qualquer tipo de material gráfico, seja ele uma simples cópia de um capítulo, encontrado na "xérox" da Universidade (prática constante dos professores dessa instituição), seja de um capítulo de livro escolhido aleatoriamente pelo aluno, no catálogo da biblioteca, e até mesmo um livro inteiro, uma vez que seja de necessidade do aluno em te-lo em seu arquivo pessoal.
Para isso é necessário também que o computador acima citado tenha o pacote Office Instalado, no qual se encontra o programa de utilização desse escaner.

e) Precisamos de uma impressora Brayle, extremamente necessária, uma vez que nem todos os alunos, possuem, em suas casas, um computador, para que possam utilizar os disquetes ou cd rooms, que contenham os livros ou capítulos digitalizados. Esses alunos poderão imprimir o capítulo a ser lido e leva-lo consigo para casa ou para o seu trabalho e posteriormente o utiliza para alguma tarefa, trabalho ou prova a ser realizado.

f) Precisamos de livros digitalizados, para que possam ser utilizados no computador adaptado e possam servir de subsídio, importantíssimo, no decorrer do curso acadêmico e na formação de futuros profissionais. Pensamos que nenhuma pessoa consciente acredita que possa existir formação acadêmica plena, desenvolvimento de intelectualidade e de pensamento científico, sem o freqüente e assíduo acesso a bibliografia, as teses, as dissertações, os artigos em revistas e todo o conhecimento científico produzido pela comunidade acadêmica, existente em nossa biblioteca.

3 - Itens que precisamos no espaço físico da Universidade:

a) Precisamos que sejam implementadas pistas táteis, conforme constante na ABNT, em pontos estratégicos dessa instituição, devido ao fato de que em determinados locais da mesma, é impossível que um aluno se localize e se encaminhe sozinho, sem o constrangimento de "ficar perdido" ou então "debatendo-se" em colunas, escadas, corredores difusos e laboratórios inacessíveis. A colocação de uma simples guia no chão, em determinados locais, vai facilitar grandemente o acesso, a mobilidade e a desenvoltura de um aluno pela Universidade.

b) Precisamos de que sejam afixados em pontos de fácil acesso, painéis com cartazes em código Braylle, com as mais diversas informações, assim como é feito para os alunos "videntes", como por exemplo, informações de empregos, estágios, oficinas, avisos gerais e etc.

c) Precisamos que sejam afixados nas portas dos laboratórios, sejam eles quais forem, os respectivos nomes dos mesmos, para que os alunos possam se localizar na Universidade, sabendo onde estão e para que se orientem adequadamente.

4 - Itens que precisamos na metodologia de ensino:

a) Precisamos que as provas transcritas em Braylle, para os alunos que utilizam esse meio, sejam corrigidas de forma mais rápida, possibilitando que o aluno receba suas notas e médias ao mesmo tempo em que outros alunos "videntes".

5 - Itens dos quais já dispomos:

Decorrente dessa discussão entendemos que algumas coisas já existem, na instituição, mas muito ainda há de ser feito para que as condições sejam mais acessíveis para o pleno exercício dos direitos desses alunos em utilizar os amplos recursos disponíveis na Universidade .

a) Entre os materiais necessários, citamos a existência de 01 (hum) computador adaptado com o programa "virtual vision" no campus João 23, mas o mesmo está desatualizado, em contraste com um outro computador que existe no campus Tatuapé que está devidamente atualizado, ou seja, com o programa na versão 4.0, enquanto o programa do campus João 23 é de versão 2.0.

b) Outro material encontrado é um scaner, mas que atualmente encontra-se danificado, sem cabo lógico e de energia elétrica, que nos impossibilita de verificar se está em condições de uso ou não.

c) Existe também um espaço, dentro da biblioteca, que parece ter sido reservado aos alunos deficientes visuais, visto que apenas ali, encontra-se o único computador que possui o programa (Virtual Vision), mas o lugar é extremamente inacessível a uma pessoa deficiente visual, tendo a mesma, sempre de contar com o auxílio de um(a) atendente do balcão da biblioteca, sendo que nem sempre existe uma pessoa disponível no momento da chegada desse aluno.

6 - Sugestões propostas:

Temos absoluta certeza que todos os senhores administradores dessa instituição, estão perfeitamente cientes dos problemas listados acima e que tem demonstrado o maior empenho no intuito de amenizá-los.

Contudo cabe também a nós, principais interessados na solução desses problemas, sugerir, colaborar, pensar juntos e encontrar as respostas para uma série de problemas que, nem sempre são tão difíceis assim, bastando para isso, uma união de esforços e idéias.

É claro que sabemos também que, como em tudo na vida, algumas coisas podem ser resolvidas a prazo imediato, outras a médio e outras ainda, em um longo prazo, porém, pensamos que, como acredita o senso comum, para que uma longa caminhada se concretize, é necessário que lancemos o primeiro passo. Assim sendo, vamos a ele.

Isto posto, abaixo relacionamos algumas propostas, idéias, iniciativas e sugestões que podem somar esforços na busca pela eliminação das barreiras e a definitiva inclusão e a conquista de uma igualdade de direitos.

a) A campanha "doe um capítulo, conte uma história" tem se demonstrado útil, mas não muito eficiente e um tanto dispendiosa na preparação dos livros digitalizados, porém essa campanha poderá ser agilizada e melhorada com a nomeação de uma pessoa, de preferência deficiente visual também, para que faça uma espécie de coordenação junto as pessoas responsáveis pela digitação, não no intuito de cobrança, afinal o trabalho é voluntário, mas sim, com a intenção de organizar e priorizar determinadas obras, lembrar os participantes da necessidade do trabalho e de servir como um elo de ligação rápido, dessas pessoas com a Universidade.

b) Uma outra campanha pode ser iniciada, a qual seria uma versão diferente daquela acima citada, voltada não a digitação de um capítulo inteiro de um determinado livro, mas sim, a correção do mesmo, uma vez que ele já esteja digitalizado previamente (processo elaborado através da utilização de um scaner com muita agilidade. Por exemplo, uma página pode ser digitalizada, em média, em 7 segundos). Isso poderia ser sugestivo para o novo nome de campanha, ou seja, "conte uma história muito mais rápido, corrija um capítulo".
Sobretudo, esse processo, além de mais rápido, é extremamente mais econômico, uma vez que evita o dispêndio de ter que se copiar todos os capítulos e fornece-los, juntamente com um disquete (kit de digitação), aos voluntários. Esse novo processo implicaria apenas no fornecimento do disquete.

c) Continuando na idéia dos livros digitalizados, um bom exemplo, é a iniciativa de um dos alunos interessados (Naziberto), que é a digitalização da bibliografia completa do curso de psicologia. Atualmente já foi possível a conversão de cerca de 100 (cem) títulos, englobando do 1º. Ao 5º. Semestre do respectivo curso.
Não esquecendo de lembrar que esses livros digitalizados servem como uma base para que, deles, sejam obtidos fitas gravadas (através do"Virtual Vision"), impressões em Braylle (através da impressora Braylle), além de poderem ser consultados imediatamente no computador adaptado.

d) Com relação à máquina Braylle, segundo nossas informações, o Instituto Lara Mara, se dispõe a doar uma dessas, caso a Universidade faça o pedido, mediante a venda de alguns selos da instituição entre os alunos da Universidade. Para isso, nos oferecemos a efetuar essa venda, falando com amigos e conhecidos, enfim, disseminando essa informação entre os alunos da Universidade.

e) Com relação a impressora Braylle, temos ciência que se trata de um equipamento extremamente caro, mas, infelizmente de necessidade extrema para nossa adaptação. Sendo assim, precisamos encontrar meios de consegui-la.
A parceria com empresas comerciais é uma sugestão, mas essas, sem dúvida, solicitarão uma contrapartida por parte da instituição de ensino.
A permissão de stands de vendas temporários no interior da Universidade, talvez seja uma saída para o problema.
Sabendo que a São Marcos é uma Universidade que tem um público, principalmente de classe média, em virtude de sua localização geográfica, numa zona privilegiada da Cidade, os empresários talvez possam se interessar por uma parceria assim.

f) Outro aluno (Lucas), do curso de direito, colocou a hipótese de que, na empresa que estagia, pode haver a possibilidade de uma parceria, uma vez que já a ofereceram para outra instituição de ensino, o colégio Caetano de Campos, com o objetivo de melhorar as condições de alunos com deficiência visual daquela instituição.

7 - Bolsas de estudo e questões financeiras:

Bolsas de estudos são, na sua maioria, destinadas a alunos carentes que não tem condições financeiras para arcar com os custos elevados de uma formação de nível superior. Cientes dessa condição sabemos também que quando contratamos um serviço e pagamos por ele, queremos esse serviço inteiro e bem feito.

Fazemos essa analogia devido ao fato de estarmos, na verdade, adquirindo um serviço, ou seja, a formação universitária. Acontece que sem contarmos com as condições de acessibilidade expostas acima, comparativamente estamos pagando por um serviço inteiro e recebendo menos do que a metade desse.

Sendo assim, acreditamos que um aluno que não tem o pleno acesso e, portanto, não usufrui do conteúdo total que a Universidade oferece a todos os outros, também não pode ficar obrigado a custear com o valor total desse conteúdo.

A - se as implementações e adaptações que sugerimos e pleiteamos forem conseguidas, obviamente que o pedido de bolsas de estudos será feito apenas para o percentual de inacessibilidade que o aluno encontrar durante o curso. Um aluno que não conseguir usufruir de 10% do conteúdo do curso pleitearia uma bolsa nesse mesmo percentual, mas hoje a inacessibilidade é muito grande e, portanto, os percentuais devem ser elevados também.

B - Pedimos a gentileza de que o caso de nossa colega (Priscila), que está as voltas de concretizar sua formação em psicologia, seja revisto e que ela seja beneficiada pelos descontos que sugerimos acima, afinal ela percorreu quase que a totalidade de seu curso, sem nenhum apoio por parte da instituição, no que diz respeito as adaptações e implementações solicitadas nesse documento.

8 - Nossa interação com a Universidade:

Queremos quebrar a imagem de pessoas que somente precisam de ajuda e que não podem contribuir em benefício da comunidade acadêmica. Para isso pretendemos estudar a idéia de implementarmos a "semana da deficiência eficiente", ou algum outro nome parecido, na qual poderemos colocar nossas aptidões a disposição do corpo universitário, estudantes e professores em geral.

Pensamos na hipótese de oferecermos um curso de Braylle, tanto para os colegas alunos quanto para os professores, para desmistificar um pouco essa questão.

Enfim, colocarmos nossas aptidões pessoais e em grupo para interagir com a Universidade, em contrapartida aos esforços que ela fará em nosso favor.

Relação das atas:

 

Tudo sobre o CONSCEG - Conselho de Alunos Cegos e Amigos na Universidade.

 

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