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Entre o papel e a tela.

Mercado Editorial: Latino-americanos e europeus discutem futuro do livro a partir do dia 18, no 3º Congresso Ibero-Americano de Livreiros, que antecede a 35ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires.

Por Janes Rocha, de Buenos Aires.

Silvia Costanti / Valor.
Foto: Elizabeth.
Elizabeth, da divisão internacional da Editora Objetiva: destaque para a aceleração, com qualidade, das etapas do processo de produção gráfica e de revisão dos livros.

"Eu era o homem errado, no lugar errado, na hora errada." Assim começa o livro "The 21 Steps" (21 passos), do escritor escocês Charles Cummings, editado pela Penguin Books. Não é um livro comum. É uma mistura de Google Maps com livro, que só se pode ler no endereço http://www.wetellstories.co.uk/stories/week1 Site externo.. O autor, um ex-espião do M-16, conta uma história de perseguições, crimes misteriosos e identidades falsas, típicos dos thrillers de detetives. Cada capítulo é ambientado em algum ponto de Londres e Edimburgo, que o leitor pode seguir do "alto", como se estivesse olhando de dentro do satélite, guiado pelos pontinhos que Cummings indica e são mostrados com recursos do Google.

"The 21 Steps" é parte da seção virtual We Tell Stories, experiência com livros digitais da tradicionalíssima Penguin, a editora inglesa que popularizou o livro em papel nos anos 30 do século XX. Se uma empresa como a Penguin está testando livros virtuais, será que o livro em papel estaria para acabar assim como a música em vinil? Que impactos as novas tecnologias estão trazendo para a indústria do livro no mundo e na América Latina?

Livreiros das três Américas e da Europa vão discutir esse tema a partir do dia 18, no 3º Congresso Ibero-Americano de Livreiros, que antecede a 35ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, que começa no dia 23, aliás Dia Internacional do Livro. Parafernálias eletrônicas como e-book e audiobook, suportes portáteis como o Kindle, da Amazon, e o Sony Reader, terão espaço garantido de exposição e discussão neste que é considerado o maior e mais importante evento do mercado editorial da América Latina e do mundo hispânico.

Além dos milhares de expositores, procedentes de 44 países, uma das grandes atrações da feira são os eventos culturais diários: palestras, workshops, sessões de leitura e narração, além de cafés literários com figuras importantes da literatura, da política e das ciências humanas. Haverá até aula de culinária prática para vender livros do ramo.

Em 2008 a feira de Buenos Aires bateu todos os recordes ao levar para o pavilhão de exposições da Sociedade Rural Argentina 1.582 expositores de 48 países e reunir um público de mais de 1,5 milhão de pessoas, sendo 1,24 milhão pagantes. Neste ano, porém, por causa da crise, o número de expositores caiu 17% e o público visitante deverá atingir no máximo 1,2 milhão de pessoas, na estimativa mais otimista dos organizadores, o que significará uma queda de 20% em comparação a 2008. São números ainda grandes, quando comparados aos de um grande evento como a Bienal Internacional do Livro em São Paulo, que recebeu, no ano passado, 728 mil pessoas e na edição anterior, em 2006, 811 mil.

A crise econômica também fez que algumas editoras internacionais desistissem de participar da feira em Buenos Aires ou diminuíssem muito sua participação. A Galícia renunciou a um projeto de artes plásticas e ficou só com a exposição de livros. O Reino Unido não terá representação, China e Coreia vão ter um stand modesto, segundo informou o jornal "Clarín".

Pablo Avelluto, diretor-editorial para o Cone Sul da Editora Random House Mondadori e um dos palestrantes convidados, disse ao Valor que parte da indústria já migrou do papel para o meio eletrônico, como as publicações científicas e os guias de viagem. Mas o livro em papel ainda estaria longe do fim, porque a leitura exige determinadas condições que os meios eletrônicos não são capazes de satisfazer: hábito, dinheiro e silêncio (para concentração). "É diferente da música, por exemplo, que é um negócio mais massivo, você pode escutar música em qualquer lugar."

Mas Avelluto afirma que algumas mudanças importantes no setor já podem ser observadas e devem se acentuar nos próximos cinco ou seis anos. Primeiro, está ajudando a resolver alguns problemas estruturais da indústria, como os livros esgotados de um lado e o sobre-estoque de livros encalhados de outro. "Há um gargalo nos canais de comercialização" e isso se deve ao fato de que o número de lançamentos ultrapassa a casa do milhar, enquanto a venda no varejo é muito mais lenta. "É um problema universal, atinge também os países ricos", diz. Mas é muito pior na América Latina, onde o acesso à leitura é baixo. O índice de leitura em países como Argentina e Brasil é de cerca de um livro por habitante/ano - nos Estados Unidos, é de seis a oito livros.

Elizabeth Xavier, editora-assistente da divisão internacional da Editora Objetiva, que também será oradora convidada no congresso, destaca a aceleração, com qualidade, das etapas do processo de produção gráfica e de revisão. "É muito fácil dar uma busca nas ocorrências de uma palavra e mandar substituí-la pela grafia correta. Também é simples experimentar em cima de determinado layout de capa até conseguir o resultado adequado." Segundo ela, outro benefício da tecnologia é a rapidez no acesso ao manuscrito, o que implica uma contrapartida das empresas com uma decisão mais rápida sobre seu interesse no trabalho. Já a demanda por livros virtuais ainda é "desprezível", na opinião dela, a não ser para obras de referência, como dicionários, que têm apresentado demanda constante.

Horacio Garcia, presidente da Fundação El Libro, organizadora da feira, diz que a ideia para a edição 2009 do evento é trazer muita gente do exterior, principalmente livreiros e distribuidores, e dar ênfase à capacitação profissional, para a qual há programação à parte. Para o escritor Guillermo Martinez, a feira é uma oportunidade de atrair mais leitores. Considerado uma das grandes revelações da literatura argentina e hispânica, Martinez é autor do livro "Os Crimes de Oxford", lançado na Inglaterra, já traduzido para 33 idiomas, que inspirou um filme homônimo lançado recentemente.

A Argentina experimentou forte recuperação do mercado de livros e sua feira internacional, realizada pela primeira vez em 1975, refletiu essa recuperação. Em 2002, ano em que o país sofreu sua pior crise econômica, foram lançados 9.537 títulos novos; no ano passado, foram cerca de 23 mil lançamentos e uma tiragem de quase 93 milhões de exemplares. É o dobro em lançamentos e o triplo em tiragem, se comparado com 2000, antes da crise, conforme a Fundação El Libro. Para Garcia, boa parte desse crescimento se deve à exportação para os demais países hispânicos.

O lema da edição 2009 é "Pensar com Livros" e entre os convidados internacionais estão o filósofo espanhol Fernando Savater e os escritores Junot Dias, dominicano que ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção 2008, e Julia Franck, revelação editorial proveniente da ex-Berlim Oriental. Dos EUA virá Annie Proulx, autora de "Segredo da Montanha" ("Brokeback Mountain"), que virou filme nas mãos do taiwanês Ang Lee.


Fonte: Jornal Valor Econômico.
Data: 09 de abril de 2009.

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