São Paulo, segunda-feira, 23 de outubro de 2017 - 06:49.

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José Valter Dornela: A minha luta incansável por livros acessíveis.

José Valter Dornela.
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A minha luta incansável por livros acessíveis e a tentativa de mostrar para a sociedade em geral a importância destes livros motivaram-me a relatar um pouco das dificuldades por que passa uma pessoa com alguma limitação visual na tentativa de adquirir livros acessíveis para seus estudos. Por mais que escrevesse, eu não teria palavras para convencer o leitor da importância destes livros para nós, e acredito que somente convivendo com uma pessoa que necessita de tais livros ou se você leitor deles necessitar, teria a real dimensão da importância deste material, mas acredito que quanto mais pessoas tomarem conhecimento do assunto mais próximos estaremos de alcançar nosso objetivo.

Uma perda gradativa da visão central, iniciada aos 9 anos de idade, fez com que já aos 10 anos eu não pudesse mais fazer as anotações do quadro, embora pudesse ler livros com letras de tamanho normal com ajuda de lupas, cada vez mais "potentes" à medida que a visão piorava. A minha limitação visual é mais acentuada na região central da retina (mácula) que é a zona de maior definição, sendo responsável pela percepção de detalhes e pormenores, enquanto a região periférica tem baixa capacidade de resolução. Por isso posso me deslocar sem dificuldades significativas, mas tenho enormes dificuldades em atividades que exigem uma maior acuidade visual como por exemplo a leitura.

Por outro lado, as pessoas que têm o campo periférico reduzido, mas a acuidade visual inalterada na zona central, têm enormes dificuldades de mobilidade, no entanto são capazes de ler livros impressos a tinta, sem ampliação. Pelo fato de não enxergar no quadro, e na maioria das vezes não receber o apoio necessário por parte dos professores, tive que impor um ritmo de estudos bastante intenso, até concluir o curso superior e uma pós-graduação. O fato de não acompanhar satisfatoriamente as aulas era angustiante, mas era compensado com uma dedicação mais intensa estudando através dos livros, que com o passar do tempo se tornava mais difícil. A leitura lenta e cansativa fazia com que eu priorizasse conteúdos relacionados a aulas e deixasse de lado outras leituras de que gostava. Nesse período ameacei várias vezes abandonar os estudos devido à enorme dificuldade na leitura e à falta de materiais acessíveis, mas a vontade de vencer e a angústia e tristeza que causaria aos meus pais, principalmente à minha mãe, deu-me forças para continuar.

Optei pelo curso de física na Universidade Federal de Viçosa onde as condições de adaptação eram mais favoráveis para minha situação e onde tive apoio de pessoas que jamais irei esquecer. Quanto à escolha do curso, segui um caminho diferente da maioria das pessoas com limitação visual, tanto porque tinha afinidade com a área de exatas, como também julgava que isso fosse exigir menos leitura, sempre tive problemas com os textos enormes da área de humanas. Aos 23 anos de idade, um ano após terminar o curso superior, ingressei no mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais, tive uma boa classificação, o que me rendeu até uma bolsa cuja remuneração permitia-me manter em Belo Horizonte satisfatoriamente. Mas nessa época, com a visão bastante comprometida para as intensas leituras, principalmente em outros idiomas, o que era mais um complicador, além da total falta de apoio por parte da universidade, tudo fez com que eu desistisse e partisse em busca de algo mais estável, o que logo consegui ao ser aprovado em dezembro de 1989 no concurso para professor de física no CEFET-MG.

A busca intensa por uma solução através da medicina sempre fez parte da minha vida, inclusive cirurgias no exterior. Sempre acreditei que através da medicina iria readquirir parte da visão, que me possibilitaria ler novamente com certa rapidez. Com pouco mais de 30 anos de idade, com os recursos óticos para leitura totalmente esgotados, não havia outro caminho senão a aposentadoria, e teria que conviver com uma situação com que acreditava não ser capaz - a ociosidade. Foi justamente quando dois amigos deficientes visuais me apresentaram um programa de voz, que permitia ler textos na tela do computador e os textos dos livros podiam ser digitalizados com o scanner, mesmo por uma pessoa cega. Fiquei maravilhado com estes recursos e eles mudaram o rumo dos meus planos e o sonho do mestrado renascia após mais de 10 anos da primeira tentativa frustrada.

No início, o programa era um pouco limitado e sua instalação não era fácil, apresentava vários problemas e por isso enfrentei algumas dificuldades, mas tive o apoio de amigos que abriam mão de seu tempo para solucionar tais problemas. Depois de algum tempo consegui programas melhores e pude organizar todo o meu material de trabalho no computador e trabalhar com bastante autonomia. O impulso inicial foi o de digitalizar tudo o que encontrava pela frente, queria montar uma biblioteca com tudo o que não havia podido ler antes e recuperar todo o tempo perdido. Mas a digitalização de livros com o scanner não é tão simples assim, nem sempre se obtém um bom resultado. Principalmente livros didáticos na minha área, os erros são inúmeros e acabamos ficando na dependência de outras pessoas para correção e, dependendo das condições do livro, a digitalização fica inviável.

Imaginava que não tardaria para encontrar os livros no formato digital para comprar nas livrarias e que o setor editorial, a exemplo de outros setores, adotaria atitudes inovadoras e logo acompanharia a evolução da informática que estava ocorrendo na década de 90. O mais difícil já estava pronto, softwares leitores de tela que permitem às pessoas cegas acessarem de forma completa e autônoma os textos que estão na tela, podendo ouvi-los de várias formas conforme a conveniência, desde ouvi-lo todo com apenas um comando ou verificar a ortografia letra por letra, com uma voz sintetizada que não deixa nada a desejar para a voz humana.

Se as editoras possuem os livros no formato digital para impressão a tinta, seria lógico que elas os colocassem à venda também no formato digital, não somente pelo fato de promover a acessibilidade para nós, mas como também mais uma oportunidade de negócios, coisa que o setor musical tão logo fez com o surgimento da tecnologia dos CDs.

Infelizmente isso não ocorreu, a maioria das editoras se recusa a publicar livros no formato digital, e numa atitude incompreensível e retrógrada, transferem esta responsabilidade para instituições que não têm condições de atender a todos que necessitam, acabando por prejudicar os deficientes visuais. Os livros digitais existentes correspondem a uma parcela mínima dos que existem a tinta, e quando se trata de livros didáticos e científicos, eles simplesmente não existem.

Comecei então um incansável processo de busca e cobrança por estes livros nas editoras, através de todos os meios possíveis de comunicação: cartas, mensagens eletrônicas, telefonemas, artigos em jornais, cobrança direta aos representantes das editoras que visitavam a escola, solicitação à televisão e ao rádio para que tratassem do assunto, ofícios ao ministro da educação e tantos outros. Fiz um ofício ao diretor geral do CEFET-MG solicitando apoio, sendo esta instituição um grande cliente das editoras, sua cobrança poderia ter um peso significativo. Infelizmente a visão limitada de acessibilidade fez com que ele ignorasse completamente o assunto. Até o momento o resultado não foi satisfatório, somente fui atendido pela editora Scipione, editoras como por exemplo a Saraiva, FTD e outras que publicam livros didáticos e científicos se negam a atender a solicitação.

Esta falta de materiais acessíveis impediu-me novamente em 2007 de fazer o curso de mestrado ministrado no campus do CEFET-MG em Araxá, por uma equipe da Universidade Federal de Ouro Preto. A falta de habilidade por parte da coordenação do curso e dos professores, para tratar com a questão, contribuiu para minha decisão de abandonar mais este curso, mas o motivo principal foi sem dúvida a falta de livros acessíveis. Tenho certeza de que conseguiria concluir o curso se tivesse um material em igualdade de condições aos demais colegas, pois concluí um curso superior e uma pós-graduação estudando sozinho pelos livros aproveitando muito pouco as aulas.

Até o momento não tinha conhecimento de um movimento organizado lutando pelos livros acessíveis, apenas pessoas isoladas que manifestavam a necessidade deles, sem maiores conquistas. Agora conhecendo o MOLLA e fazendo contato com o Naziberto, tenho a certeza de que com o apoio da sociedade em breve chegaremos lá.

Pelo que escrevi e pelo que você, leitor, pode imaginar acerca da importância desses livros, principalmente dos que ainda deles necessitarão, como as crianças e adolescentes para que estes não tenham que passar por tantas provações e não sejam privados de terem acesso à leitura e ao conhecimento e possam estudar com um pouco mais de condições, faço um apelo para que se junte a nós de forma a cobrar das editoras o respeito que nós também merecemos, e que não nos empurrem para as instituições, que também não têm condições de nos atender, e não nos tratem como indigentes ou incapazes, como se não tivéssemos os mesmos direitos de comprar livros igual a qualquer pessoa.

Sempre que possível envie uma mensagem às editoras cobrando isso, cobre também dos políticos, dos donos e diretores de escolas e, ao comprar um livro, questione também o proprietário da livraria. Acredito que uma cobrança generalizada de todos que tomarem conhecimento do assunto fará com que as editoras mudem sua forma de agir e enxerguem nos livros digitais uma opção de mercado para podermos comprá-los da mesma forma que se compram os livros impressos a tinta. Quero finalizar agradecendo a você, leitor, que teve a paciência de ler este meu relato e ao Naziberto a oportunidade de expressar aqui as minhas idéias.

Autor: José Valter Dornela.
Contato: josevalterdornela@oi.com.br.
Cidade: Araxá.
Estado: MG.

 

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