São Paulo, terça-feira, 27 de junho de 2017 - 12:45.

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Lucas Divino: 80% dos livros que precisei não existiam.

Lucas Divino de Saouza.
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Prezado Beto,

Lendo essa mensagem, resolvi contar imediatamente minha grande luta em busca de um melhor conhecimento através da leitura na Universidade São Marcos.

Iniciei Direito em 2001, certo de que as dificuldades seriam imensas no campo da leitura, pois tinha consciência que a Universidade de minha escolha, assim como quase todas as Universidades, não estava preparada para me oferecer o básico para seguir os estudos.

No entanto, me deixei levar pela vontade de fazer um curso superior, bem como, por acreditar que temos sempre que abrir as portas, pois o comodismo nos faz covardes e fracos.

Bem, não preciso dizer que o início foi péssimo, pela falta de 90% dos livros que precisava em braile ou digitalizados, ou, aqueles que existiam na Biblioteca estavam ultrapassados, com leis revogadas e que não mais interessava para meus trabalhos. Mesmo nessa situação, fiz o primeiro ano da Universidade. É claro que para suprir essa necessidade, contei com a ajuda de muitos colaboradores, sobretudo, do Instituto de cegos Padre Chico, que gravavam para mim a leitura dos principais livros a ser utilizados.

Assim, abro um parênteses nesse relato para destacar a Pedagoga Vera Lúcia da Instituição aqui citada. Essa profissional foi sem sombra de dúvidas a principal colaboradora, pois sempre esteve à disposição para gravar diversos textos.

Do segundo ano em diante, a Universidade criou um programa com a participação de voluntários encarregados de digitar os textos, a fim de tentar suprir essa lacuna. No entanto, tal objetivo, muito embora tenha dado sua contribuição, não foi suficiente para resolver o problema em questão, pois na maioria das vezes os capítulos chegavam atrasados, dificultando meus estudos.

Quando já me encontrava no quarto ano do Curso, me uni com outros companheiros deficientes visuais da Universidade, a fim de lutarmos juntos pela mesma questão. Então, formamos um grupo denominado CONSCEG, que tinha a missão de levar à Universidade idéias a fim de eliminar aquela distorção. Certamente foi um período muito difícil, pois os ditos "teóricos" da Universidade estavam vendo que muitas coisas que diziam e que não estavam saindo do papel, não eram suficientes para corrigir um problema grave e que não estava sendo encarado com a seriedade que devia.

Entretanto, foi um período de conquistas também, pois a Universidade entendeu aos poucos que precisava mudar aquele quadro, caso contrário, estaria colocando no mercado profissionais inúteis, sem leitura, portanto, sem nenhum tipo de capacidade argumentativa.

Então, a mesma criou um núcleo que tinha a função de preparar materiais digitalizados e em braile também. Quando terminei o curso, muitas coisas já se encontravam em uma melhor situação, tanto é que minha frustração é que a Impressora braile foi adquirida bem no meu último dia de aluno.

Atualmente, trabalho na SKY Brasil Serviços LTDA., na área de Recursos Humanos e pretendo com certeza continuar estudando. Não tenho dúvida que a luta constante pela leitura foi fundamental para meus estudos, sobretudo, para conseguir a aprovação no exame da OAB a fim de me tornar cada vez mais um bom profissional.

Grato.

Autor: Lucas Divino de Souza.
Contato: lucas.divino@itelefonica.com.br.

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