São Paulo, quarta-feira, 23 de agosto de 2017 - 03:18.

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Surtando com bom humor - diário de bordo.

Chegou um momento dentro do curso no qual os meus nervos estavam a flor da pele, minha paciência esgotada e meu cansaço era nítido. Chegava em casa e meu corpo acusava dores incríveis, mas não havia levado nenhuma surra física, nada disso, a surra que levava era psíquica, moral, surravam minha cidadania e minha dignidade. Isso, podem acreditar, doía muito mais do que pancada!

Para tentar contornar essa situação extremamente desgastante e aliviar um pouco a minha mente, escrevi durante algum tempo uma espécie de diário de desabafo em forma de piada, de pastelão, dando-lhe o nome de "Diário de bordo" e enviando este diário para todo corpo administrativo da universidade. Minha esperança era que alguém pudesse se sensibilizar com aqueles relatos que denunciavam, em tom de brincadeira, algo muito sério.

Para descontrair um pouco, apresento abaixo algumas das passagens desse diário de bordo e que serviu muito para que eu pudesse relaxar um pouco, que eu pudesse brincar um pouco e esquecer por alguns instantes as dificuldades que me aguardavam todos os dias na porta da universidade.


Dia 17 de Maio de 2004.

Querido diário, hoje estou feliz, um pouco esfolado, mas feliz. Por que esfolado? Ah! Esqueci de lhe dizer que hoje começaram os preparativos la na faculdade para a semana da saúde mental. Para isso as pessoas logo se prontificaram a reorganizar as coisas. Uma dessas reorganizações implicou no reposicionamento de alguns painéis, do tipo "totem", todos com cartazes coloridos e cheios de informações , avisando aos que enxergam, que a semana começa na quarta-feira e terá muitas palestras, encontros e discussões. Que legal não é? Eu também acho, mas infelizmente acredito que devo ter danificado algum painel daqueles, aliás, falando em encontros, foi um encontrão! porque os benditos painéis foram colocados no único local livre e seguro que eu tinha para passar com minha bengala, no canto direito do corredor. Porque no canto esquerdo, tem orelhão , uma fila de latões de lixo, milhares de caixas de bitucas de cigarro (puxa vida! Como esse povo fuma!), o Ministério da Saúde informa: Fumar pode provocar câncer... cuidado pessoal!

Mas voltando ao meu encontrão, foi muito interessante, bati em cheio, de nariz, peito, cara e tudo, foi um daqueles encontros cinematográficos, como aquele de dois apaixonados que se encontram na praia e ao se abraçarem começam a girar, girar, girar, girar. Pois bem, querido diário, eu estou girando, girando e girando até agora, mas não de paixão ou de amor, mas sim de tontura, dor na testa e no nariz, sem contar a canela esfolada (será que a paixão também é assim?). O pior de tudo é que depois desse encontro apaixonado, o safado daquele painel nem me mandou uma cartinha, nem um aviso, nada, nada, será que ele não tem sentimentos?! Bem, mas frustrações amorosas a parte, depois eu encontrei também um jogo de cadeiras geminadas que eu juro, nunca estiveram naquele lugar, juro mesmo!

Ah, mas não se preocupe, esse encontro não foi avassalador e apaixonado como o do painel, foi normal, afinal eu não conseguia esquecer aquele fofo, além do que , sou fiel as minhas paixões.. . Como percebi que o caminho tradicional estava definitivamente bloqueado, resolvi procurar outro. Encontrei, o caminho que antes era bloqueado pelas cadeiras, sim as mesmas que acabei de dizer que estavam no caminho seguro. Bem, sei que essa história deve estar meio confusa para você, mas se pensa assim, procure então fazer esse percurso de olhos fechados, daí você vai perceber realmente o que é confusão!

Obviamente, as pessoas que fizeram todas essas mudanças no cotidiano da Universidade, não o fizeram com o objetivo de prejudicar os ceguinhos que andam por ali, o problema é que eles não lembraram que existem tais ceguinhos... Olá pessoal! Muito prazer heim! Tudo bem com vocês?!

Comigo? Ah! Comigo tudo bem, tudo em ordem!

Aliás, Cadê o Merthiolate e o esparadrapo que estavam aqui?

Sabe, querido diário, hoje eu aprendi um montão de coisas novas, teve uma apresentação de trabalho de meus colegas de turma, que falava sobre gravidez na adolescência , foi muito legal... O grupo exibiu um filme que tinha o som original em inglês e era legendado, por isso eu sai da sala e fui passar um tempinho no banheiro para não incomodar ninguém. Depois uma outra apresentação que falava sobre saúde do trabalhador , as meninas exibiram um monte de transparências lindas que eu não vi nenhuma, mas me disseram que eram lindas... que gracinha, não é?

Depois a secretária da coordenação, entrou na sala e trouxe um montão de folhas de papel, entregaram uma na minha mão e eu fiquei olhando aquela folha tão legal, até que achei que era pra gente fazer um avião de papel e jogar pela janela, Porém, , bem a tempo, uma alma nobre da sala me socorreu, antes que eu lançasse a dobradura, e me disse que ali estava escrito toda programação da semana da saúde mental, sendo assim eu desfiz o brinquedo e guardei a folha, para até um dia que eu volte a enxergar e possa lê-la (aleluia!).

Sabe diário, é por tudo isso que eu adoro estudar psicologia, a gente aprende tanto! A gente fica sabendo dos cuidados que o ser humano tem que ter com o outro, o respeito, o acolhimento, a preocupação com uma vida melhor para todos, a indiferenciação das diferenças e coisas assim. Que bom!


Dia 18 de Maio de 2004.

Bom dia meu querido diário, hoje estou feliz.

Você sabe que eu sou teimosamente feliz, não vou desistir nunca de sê-lo.

Hoje eu tive uma aula de H.T.P. , é uma técnica de desenhos que nos permite analisar a personalidade de alguém através de sua expressão gráfica. Tudo bem, você vai me dizer que eu, cego, não posso analisar desenhos, até que concordo contigo, não totalmente, mas concordo, agora a professora certamente concorda plenamente com você (será que vocês formaram um conluio contra mim?), diário! por favor não me venha com traições heim?!

Ela dá uma aula super legal, pra quem enxerga é super legal, ela fala "olha que bonitinho!", "vejam só esse desenho!", "prestem atenção nesses detalhes!", "olhem só que coisa incrível!", e por ai vai.

É claro que de vez em quando ela se lembra que eu estou na sala e me fala alguma coisinha, tipo "olha Beto, eu nem sei como lhe explicar isso", ai eu digo, tudo bem, não precisa explicar e fico na minha, ou seja, definitivamente eu não vou trabalhar com desenhos, isso já foi determinado por ela e por você né diário??! Desse jeito eu fico na sala, no meu cantinho e não saio porque senão fico com falta, mas que dá vontade dá viu!

Depois eu tive uma outra aula com a professora que ensina sobre fábulas e T.A.T., outros testes projetivos de personalidade.

A aula foi em grupo e tudo bem.

Quando eu estava saindo, foi engraçado, lembra de ontem, sobre minhas topadas com os painéis e cadeiras???

Pois bem, a pessoa que fez todas as alterações, bem a tempo, falou com uma pessoa que trabalha comigo, para ela não se esquecer de me avisar que ele havia trocado as coisas de lugar, para eu tomar cuidado.

Que legal né, deu tempo mesmo!

Falando nisso, minha canela já está melhor, já tem casquinha e parou de doer.

Bem diário, fico por aqui, tudo de bom.

Mais uma vez eu reforço que é maravilhoso estudar psicologia, a gente aprende tanto!


Dia 29 DE Maio de 2004.

Bom dia querido diário, tudo bem contigo?

Comigo vai caminhando, mais uma semana lá na faculdade, mais uma semana trilhada a caminho da formação. Éh meu querido, eu pretendo me formar um dia sabe?

Ainda mais agora que eu fiquei sabendo que o grande projeto de acessibilidade da Universidade São Marcos, a virada de mesa, a revolução em termos de acesso fácil e tranqüilo finalmente vai começar.

Tá bom, não precisa me perguntar por onde que eu já digo. É um tanto esquisito, eu não entendi muito bem, mas eles vão começar pelo fim. É isso mesmo, eu disse fim!! você ficou surdo... só me faltava essa agora viu! Um cego escrevendo em um diário surdo! Ah! Meu Deus! É Isso que eu posso chamar de comunicação profunda! Mas voltando as minhas notícias, eu disse que não entendi muito bem, o que significaria começar pelo fim, ou seja, pela clínica. Éh! Mas tem a Priscila por lá, como ela está no nono semestre, ela já está utilizando apenas a clínica, mas tem aulas aqui na Universidade também.

Daí eu fui correndo perguntar pra minha amiga Priscila se eles estavam em contato com ela. Todo feliz, fui indagando eufórico... - E aí Prí! O pessoal do grupo de acessibilidade está falando com você? Como são eles? São legais? você está dando todas as dicas pra eles? você está dando sugestões? Olha, fala pra eles que... Fala também que..., Ah e não se esquece de dizer que... Foi quando notei a expressão de espanto no rosto dela. Pera lá, um cego dizendo que notou uma expressão de espanto na face de alguém??? Bem, como eu sou que estou escrevendo minhas memórias, eu posso falar o que quiser tá? E outra coisa, cego tem suas artimanhas certo? Então voltando, eu parei quando notei a expressão de espanto da Priscila que depois de alguns segundos me disse: "mas do que você está falando?" daí eu respondi: "ué Prí, você não está sabendo do grande projeto de acessibilidade, que vai permitir que todas as pessoas do Mundo venham para cá? Os cegos, os surdos, as crianças, os idosos, as gestantes, as viúvas, as mães solteiras, os mudos, os cadeirantes, os tibetanos, os jupterianos, os ursos polares e tudo mais???

A resposta da Prí foi simples e enfática - NÃO! EU NÃO SABIA! Ai então eu morri. No entanto, assim como um milagre renasci. Sabe por que? Porque me lembrei das aulas de psicologia da aprendizagem e as teorias de um senhor chamado Vigotsky. Meu caro diário, o tal do Vigotsky, Deus o tenha em boas mãos, foi fera mesmo, Ele falou sobre uma tal de contradição, uma tal de dialética , uma tal de negação da negação.

A partir daí eu comecei a entender tudo, tudinho mesmo! Santa psicologia! Santo Vigotsky! Que maravilha é estudar psicologia... a gente se sente tão bem, tão acolhido, tão esclarecido, tão seguro! Eu vou lhe explicar o que é essa tal de contradição meu caro diário, para você não ficar boiando, mas vou lhe dar exemplos práticos, porque a teoria pura nem sempre é muito clara. Portanto vamos lá. Eu sou cego não é? Isso mesmo, mas acabei de escrever que notei uma expressão no rosto da Prí! Entendeu??? Isso é uma contradição. Outro exemplo... O Henrique, que é um amigo, aquele que estuda zootecnia, ele é paraplégico, utiliza-se de uma cadeira de rodas para circular pela Universidade. Pois bem, ele precisa de uma rampa para subir e descer para o banheiro adaptado para ele. Então fizeram uma rampa para ele subir e descer.

Então ele me disse, um dia desses, que ele não consegue subir a rampa sozinho, somente com a ajuda de alguém, empurrando, na rampa que foi feita, especificamente, para que ele subisse sozinho. Percebeu meu caro diário, isso é uma outra contradição, ou seja, a negação da negação.

Você não entendeu ainda? Além de surdo você está burro também?? A negação da negação é o seguinte: A rampa foi especialmente projetada, para que ele não tivesse problemas para subi-la, mas ele não sobe sozinho por ela, justamente porque não consegue! É mais ou menos por aí. O Henrique me falou também que a sala do coordenador do curso dele é no segundo andar, e não tem rampas para o segundo andar, então ele não tem contato autônomo com o coordenador do curso. Tem ainda os painéis com avisos do curso dele, todos colocados no segundo andar, onde ele não consegue chegar, sendo assim, temos mais algumas contradições por aqui.

Falando em painéis de avisos, a Soraya, uma outra amiga , nesta semana me deixou muito feliz. Ela conseguiu passar num concurso que teve lá no C.R.P. e vai trabalhar lá a partir de segunda feira. Quando eu perguntei à ela como ficou sabendo do concurso, a resposta foi a seguinte: "ah! Beto, eu li naquele painel que tem no corredor", que legal né? Outra contradição a vista meu querido, ou seja, um painel de avisos que não avisa nada, pelo menos pra mim. Então temos o seguinte: Eu não enxergo, então não posso ler o painel, apesar do painel estar lá, já o Henrique enxerga, mas não pode ler o painel porque o painel não está lá. você entendeu diário?! É Vigotsky puro! parece até que estamos na Rússia pós revolução! E viva Trotsky! Já entendi, o pessoal da São Marcos é todo revolucionário, todo mundo é comunista, é vigotsquiano! Mas pera lá, o foco dessa Universidade não era psicanalítico?? E a psicanálise não foi inventada na Alemanha capitalista?! Pois é, mais uma contradição!

Viu só, meu caro diário, como eu estou aprendendo psicologia? É maravilhoso.

Acontece que com essa história de rampa pra lá, revolução pra cá e etc, me deu vontade de cantar o Hino Nacional Brasileiro. Quanta emoção! Só não posso esquecer de dizer que ontem tive prova de psicologia da aprendizagem, e preciso parabenizar a professora Marisa Irene, ela não se esqueceu de mim, trouxe meu disquete, mesmo sem eu precisar avisar. Parabéns Marisa, parabéns.


Dia 08 de Junho de 2004.

Bom dia amigo diário, tudo bem contigo?

Comigo tudo bem, lá na faculdade o semestre acabou e eu fui bem, nem sei como, mas fui. Sabe caro amigo, a cada dia que passa eu me certifico mais que o ser humano é realmente um sobrevivente, um eterno superador de obstáculos, em suma, um ser esplêndido. Como dizia o velho poeta... mesmo com tudo contra... a gente vai levando.

Eu termino esse semestre com muita emoção, Hoje tive uma aula de práticas em psicologia que foi um fechamento com chave de ouro.

Por que?

Porque, depois de quase 3 anos eu fui tratado por você. É mesmo, me chamaram de você. Mudaram o pronome!

Quem?!

Ah! Nem te conto, ou melhor, vou lhe contar sim, para você ficar de queixo caído.

Será que você seria capaz de adivinhar?

Lhe dou apenas uma dica... não pense no óbvio não.

Difícil?

Bem, como você não adivinhou mesmo, eu vou falar...

Foi um grupo de meninas graduandas de psicologia.

Éh! Meu caro, graduandas ainda, sabe o que são graduandos? São uns bichos estranhos que ainda não sabem quase nada, mas pensam que sabem tudo. Eu mesmo, sou um graduando e posso dizer que sei o que estou falando. Viu só? Uma mania de grandeza que é impossível!

Prosseguindo, Elas me chamaram de você, elas não me trataram por "ele", elas me trataram por "você", que coisa boa né? Ainda graduandas de psicologia e fizeram uma coisa tão difícil que alguns levam a vida para perceber.

Sabe diário, não existe nada mais prazeroso do que ser reconhecido, ser legitimado, ser confirmado em sua existência, sua dignidade, sua importância. Você, por exemplo, vê como eu o trato? Sempre por você, por que eu faço isso? Porque eu me comunico diretamente com você, porque interajo diretamente contigo, como diziam Berger e Luckerman, que estudei no quarto semestre, quando dizem que uma pessoa se identifica e se nomeia de acordo com que o outro a nomeia primeiro, sendo assim, se eu for chamado de "ele" eu então serei ele - não serei eu - entendeu? Mas isso só o professor Ricardo pra entender mesmo... ele e o Siampa!

Eu fico face-a-face contigo, por incrível que pareça, nós olhamos um nos olhos do outro e nos reconhecemos mutuamente e nos confirmamos e nomeamos mutuamente, eu como escritor, por pior que seja, e você como ouvinte e falante também, por mais insólito que seja. Nós travamos uma relação, não importa que os outros não entendam, somos assim.

Essas meninas fizeram um trabalho interessantíssimo sobre o envelhecer, e utilizaram como apoio um livro infantil chamado "A pedra arde". É um livrinho super simples e com ilustrações do tipo badamecos, ou seja, bonecos desenhados com palitos, traços super simples para crianças. Elas ilustraram o trabalho com a estória que é contada nesse livrinho.

Pois bem, você deve estar me perguntando e daí né? Eu lhe respondo que e daí tudo!

Elas simplesmente copiaram todas as ilustrações do livro com aquelas colas coloridas que deixam o traçado em alto relevo, como se fossem linhas soltas por cima do papel.

Foram mais de 15 folhas copiadas, desenhos, por mais simples que fossem, traziam a riqueza de detalhes, casinhas, árvores, pedras, caminhos, etc, que formaram um livro e me presentearam com ele.

Agora você está rindo de mim, me chamando de bobo né? Bobo por estar tão emocionado e tão festivo com uma simples pilha de papel com desenhos primitivos e infantis. Talvez você possa pensar assim, mas você não sabe o que significou isso, o que representou esse gesto.

Antes de concluírem o trabalho, essas meninas me procuraram, me fazendo uma série de perguntas sobre o que eu achava delas prepararem aquilo. Me perguntaram como seria melhor para que eu compreendesse o que elas pretendiam demonstrar e me pediram para ensinar algumas letras e números em Braille para elas aprenderem.

Depois elas fizeram uma provinha numa folha de papel e me mostraram para ver se eu conseguia compreender aquilo que estava desenhado e ficaram super felizes quando eu disse que estava conseguindo perceber os desenhos.

Elas indagavam: - E aí Beto, você está percebendo? - Está bem pra você assim?

Você compreendeu amigo diário? Elas se aproximaram de mim e me perguntaram o que eu pensava a respeito daquilo. Olha só que coisa maravilhosa! Elas mudaram o pronome, eu não era mais o "ele" eu era o "você", isso é fantástico!

Não é maravilhoso o que as relações face-a-face podem fazer? Elas interagiram diretamente comigo, porque conviveram comigo todo esse tempo, sentiram as minhas angústias, presenciaram meus desabafos em sala de aula, as minhas queixas de invisibilidade e por ai vai. Elas conseguiram internalizar esses sofrimentos do outro e conseguiram sentir as mesmas coisas, tanto que perceberam a exclusão e me tiraram dela, pelo menos naquele momento, naquele trabalho, me retiraram daquele lugar de invisibilidade, certamente porque não queriam estar ali e interagindo comigo, elas se colocaram naquele lugar de exclusão por alguns momentos.

Eu fiquei tão contente que chamei todos os meus amigos cegos para dar uma força pras meninas, para que eles também pudessem ser identificados de uma forma diferente, para que eles pudessem sentir o gostinho gostoso do reconhecimento, do olhar nos olhos e do respeito para com a diferença deles também.

No final elas perguntaram o que achamos e a emoção não nos permitiu emitir muitas palavras, todas as que gostaríamos de ter falado, mas pensando em todos os anos que estamos por aqui, 4 do Lucas + 4,5 da Priscila + 1 da Rita + 1 da Jucilene + 2,5 eu + 5 da Claudia + 5 da Adriana, sem contar os outros que eu não conheci, mas sei que existiram - e isso jamais havia sido feito antes, seja por quem quer que fosse.

Pensando em tudo isso, eu consegui dizer apenas que elas haviam escrito um livro falando para cegos e não falando sobre cegos, e agradeci.

Obrigado Thalita, Carolina, Julia, Julianae Fabiana, vocês tem muito a ensinar.


Dia 09 de Junho de 2004.

Bom dia diário amigo, tudo bem contigo?

Comigo tudo bem, comigo, mas com meu amigo Lucas não está muito.

Ele me ligou hoje e me deu uma notícia esquisita, contudo esperada. Falou-me que as plaquinhas que ele havia colado nas portas das salas principais do campus onde ele estuda... Que plaquinhas? Ah! você sabe vai, não se faça de tonto, são aquelas plaquinhas que ele colou com os números das salas, igual eu fiz também no campus que freqüento, para que eu não fique entrando em sala errada como um tonto. Bem, ele havia colado algumas delas, mas ele não entende porque todas foram retiradas, menos a de sua sala.

Ah! pobre Lucas, pena que ele cursa Direito, não psicologia como eu, caso contrário teria percebido a provável mensagem oculta que está por trás disso.

Acho que o recado é o seguinte: "seu atrevido! Como ousa macular a estética das portas das salas desse prédio? Colando essas porcarias de etiquetas que não servem para nada!", "restrinja-se a sua sala e fique quietinho por lá, afinal você já está incomodando demais, causando mau estar demais".

Mau estar, que coisa forte né amigo? São tantos maus estares que existem por aqui, tem gente tão sensível não é?

Me disseram uma certa vez que se a gente dá um soco na cara de alguém, a dor vai ser grande, mas depois passa - agora se a gente fere a vaidade da mesma pessoa, isso sim não passa nunca, ferir vaidades dói muito!

Como o Lucas foi atrevido, que menino mau! Quanta agressividade! Acho que vou mandá-lo para um reformatório imediatamente, ele está precisando de um corretivo.

Então eu disse pra ele:

Ora, ora seu Lucas, como você faz uma coisa dessas? Agride assim uma instituição tão nobre e tão acolhedora como a que você estuda?

O que? Só porque você estuda aqui há 4 anos e nuca teve nenhum tipo de assessoria técnica por parte da mesma, com raríssimas exceções de alguns professores abnegados que tinham a paciência de pensar contigo uma forma de incluí-lo no curso? Ou melhor na disciplina deles?!

Como então você explica todas essas notas 10 heim menino?!

Ora ora seu Lucas, não me venha com choramingos! Só porque você está nessa instituição há 4 anos e nunca teve um livro atualizado para ler e os que conseguia sempre eram atrasados? Quando não precisava mais?

Confesse que você teve todo o apoio do instituto Padre Chico vai? Confesse!

Isso mesmo, lá no Padre Chico você teve pessoas que liam os livros pra você, convertiam algumas coisas em Braille, outras pessoas que passaram horas e horas lendo e gravando textos pra você e muito mais, não é? Seu moleque! O que você quer mais?!

Então pare com essa agressividade toda e restrinja-se a sua sala, aquela que tem a etiqueta colada e fique lá.

E outra coisa, caso você tenha algum mau estar de outra ordem... tipo mau estar fisiológico - entende? - isso mesmo, caso você sinta vontade de fazer aquelas coisas que ninguém mais no Mundo poderia fazer por você, faça-as na sala mesmo, porque senão corre o risco de você ficar procurando o banheiro as pressas, sem etiqueta, e vai que você entre numa sala errada, tipo a do coordenador, a do diretor, algum laboratório ou coisa parecida, sabe-se la né? para evitar esse tipo de constrangimento e mau estar alheio, faça por lá mesmo, leve uma sacolinha do Carrefour, Wall Mart, sei lá, se vira porque você não é quadrado!

Eu disse tudo isso à ele, meu amigo diário, com um nó no coração, mas disse mesmo, as vezes a gente tem que ser duro com os amigos sabe?

Afinal de contas, pra que tanta agressividade naquele menino? Sem motivo algum!

Ficar ai sujando a instituição!

Que coisa feia!


Dia 10 de Junho de 2004.

Bom dia querido diário, estou feliz como sempre.

Acabaram as aulas, minha média foi a esperada e estou livre para descansar nas férias.

Éh! Descansar sim, sem me preocupar com nada. Lembra do semestre passado, ou melhor das férias do semestre passado, sim! Aquelas nas quais eu quase não dormi, não sai, não namorei, não respirei, pois estava digitalizando livros como um louco para que nesse semestre que acabou eu tivesse sossego para estudar a psicologia, lembra?

Éh, mas agora tudo será diferente!

O professor Valdir me informou que nessas férias será feito um grande esforço em conjunto na Universidade e tudo será diferente no semestre que vem.

As matérias serão preparadas, livros, textos, provas, etc, etc.

Agora eu posso desfrutar minhas férias como todos os outros alunos da classe, viajar, quem sabe? Sei lá, pro Guarujá, Aruba, Miami! Nossa! viajei demais... quem sabe o boqueirão ou Peruíbe já estariam bom demais!

Outra coisa boa que o professor Valdir falou foi que o pronome de tratamento mudou, ou melhor, vai mudar, bem que as meninas do grupo de segunda feira me pareciam um tanto visionárias. É mesmo, ele falou que foi aceita a participação das pessoas com deficiência naquele grupo de estudos que foi montado para discutir coisas sobre pessoas com deficiência na Universidade.

Parece então que o pessoal vai mudar o pronome, que legal! Os deficientes serão chamados de "vocês", não mais de "eles" isso é o máximo! Vão nos dar voz!

Sendo assim, amigo brochura, eu vou é curtir minhas férias, com tanta boa notícia, eu quero mais é me divertir e esperar o 6º. Semestre chegar para eu me esbaldar e curtir a Universidade adoidado! Curtir como todos os meus amigos que enxergam, me divertir por lá. Biblioteca, laboratórios, salas, corredores, tudo, tudo, me esperando de braços abertos. E você sabe muito bem do refrão da velha canção que diz: "você me abre os seus braços e a gente faz um País", e você sabe que a gente faz mesmo!

Você também deve estar contente e aliviado, afinal, não vou mais ficar chorando as minhas pitangas sobre você né? Só vou escrever coisas boas, elogios rasgados e declarações de amores mil.

Acredito que você nem vê a hora disso começar não é?

Eu também não!

Acho que vou aposentar você por uns dias tá? Não fique triste não, eu trago alguma coisa da praia pra você... areia quem sabe! Risos.

Férias... aí vou eu!

- Vamos a la plaia
Ô ô ô ô ô
Vamos a la plaia...

Onde raios eu deixei meu protetor solar fator 5000?

Fui!

 

Como se desenvolveu a luta por inclusão e acessibilidade na Universidade São Marcos.

 

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