São Paulo, terça-feira, 27 de junho de 2017 - 12:40.

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No início todo mundo ajuda, depois... Cara, se vira!

Bem, disse antes que consegui me enturmar com vários colegas e que eles me quebravam muitos galhos cotidianamente na faculdade, suprindo algumas falhas da instituição. No entanto, todos sabem que paciência tem limite e os colegas também tinham seus afazeres, seus compromissos e limitações, por isso é comum que um fenômeno muito interessante surja nesses momentos em que o pessoal já está meio de "saco cheio" de quebrar seu galho. O fenômeno da saturação. E comigo não foi diferente.

O processo é mais ou menos assim:

Quando você chega com sua bengala ou cão-guia na sala de aula na qual somente você tem aquela deficiência, a estupefação é geral, mesmo em pleno Século XXI, algumas pessoas ainda nos olham como se tivéssemos deixado o disco voador estacionado na frente da faculdade.

Em seguida é uma verdadeira comoção nacional, as pessoas vencem o preconceito ou o medo e vão chegando devagarzinho e procurando fazer amizade e matar a curiosidade que é característica para com os diferentes e principalmente para aqueles que possuem uma deficiência bastante significativa como é o caso das pessoas cegas, entre outras deficiências.

Daí surgem os mais afoitos e se oferecem para levar você para o banheiro, para a lanchonete, para casa, para passear no bosque, dizem que vão ler tudo que você quiser, que vão anotar as coisas se você precisar e assim por diante. Uma verdadeira tempestade de verão de solidariedade e demonstração de desprendimento.

Nesses momentos, levados por essa comoção e pela demonstração tão explícita de solidariedade, ficamos maravilhados e acabamos confiando naquilo, relaxando e imaginando que será uma maravilha poder estudar ao lado de seres tão incrivelmente amigos, fraternos, compreensivos e até angelicais. Mas infelizmente o teimoso do tempo insiste em passar e transformar as coisas.

Em um segundo momento, depois de alguns dias de aula, período em que você por pura sobrevivência acabou pedindo mais ajuda do que a paciência dos colegas aguentava, aquela tempestade de solidariedade vai diminuindo e se transformando em uma chuva leve de outono. Aquele colega que se atirava em sua frente para ajudar você a achar a porta da sala já não se atira com tanta volúpia; Aquela amiga que você contava na leitura dos textos avisa que tem compromisso mais tarde e não vai poder mais ler as 100 páginas que ela oferecera antes, talvez umas 5 ou 6 no máximo agora; Aquele colega que tinha o maior prazer em acompanhar você na lanchonete fala que não está com fome e não vai descer hoje, e por ai vão se seguindo algumas das desculpas mais criativas do mundo.

No terceiro momento, a chuva de outono vira seca no agreste nordestino, quer dizer, o pessoal foge mesmo, se esconde mesmo, já não precisam mais dar desculpas porque você já não os encontra mais. Daí surge o "se vira que você não é quadrado".

Obviamente que esse relato não é nenhuma crítica a esse comportamento esquivo dos outros, até porque somos humanos e seres humanos têm suas limitações. Ao mesmo tempo vale lembrar que esses outros são colegas de curso com os mesmos propósitos, ou seja, se formarem profissionais conhecidos e respeitados em uma determinada profissão e, nesse sentido, qualquer concorrência é concorrência. Desta forma, conforme dizia o velho e bom Charles Darwin, em sua teoria da evolução das espécies, "Os mais fortes e adaptados sobrevivem, o restante tende a desaparecer". Por isso, é compreensível e esperada essa mudança de atitude, mas a empolgação do início acaba nos fazendo acreditar piamente que aquilo era verdade.

Portanto, a ficha cai, a desilusão é forte e a partir deste momento temos que decidir entre ficarmos quietos e conformados com aquela exclusão e falta de acessibilidade dentro do curso, fingindo que estamos aprendendo enquanto a instituição finge que nos ensina, ou então fazemos alguma coisa para chamar a atenção àquela vergonha, àquela invisibilidade e completa indiferença para com nossas especificidades de aluno com deficiência por parte dos administradores da instituição.

Eu optei pelo segundo caminho, quer dizer, não me conformei, não me resignei e parti para buscar o meu lugar de direito dentro daquela instituição de ensino, um lugar que não deveria ser melhor do que o dos outros, mas no mínimo igual ao de todos. Certamente foi o caminho mais difícil, mais trabalhoso, mais desgastante, no entanto, mais digno também.

 

Como se desenvolveu a luta por inclusão e acessibilidade na Universidade São Marcos.

 

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