São Paulo, terça-feira, 17 de outubro de 2017 - 19:23.

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"Quem são os nossos olhos?"

Cresce no país o uso de recursos audiovisuais que tornam a arte acessível às pessoas com deficiência.

Livia Deodato.

Foto: Marcelo Panico.
NOVO OLHAR
Marcelo aplaude a ópera Pagliacci. Com a audiodescrição, ele diz que percebe detalhes dos quais não se dava conta quando tinha visão.

Marcelo Panico não sabia que tinha nascido com uma má-formação genética na retina. Em 2002, quando tinha 33 anos, o problema se manifestou. Ele ficou cego em três meses. "Até então, minha maior frustração era nunca ter usado óculos", diz. Afundou na depressão. Pouco tempo depois, soube que sua mulher, Mary, estava grávida. "Fiquei pior ainda. Achava que um deficiente visual não tinha condições de fazer nada da vida", diz ele. Mas o nascimento de Maria Luiza, de alguma forma, fez Marcelo se reerguer. Procurou ajuda na Fundação Dorina Nowill para Cegos. Lá, reaprendeu a andar, a tomar banho, a cozinhar, a ler e a exercer, no escuro, a profissão de advogado. Há pouco mais de um ano descobriu que também poderia voltar a frequentar teatros e cinemas sem que alguém precisasse cochichar em seu ouvido as cenas de ação ou as trocas de olhares. Bastava um aparelho com fone de ouvido e recepção de ondas de rádio para Marcelo ouvir a audiodescrição das cenas, entre as pausas dos atores. Na ópera, dias atrás, notou mais detalhes do que quando tinha visão. "Antes eu enxergava, mas não via nada", disse ao fim da ópera Pagliacci, apresentada há três semanas no Theatro São Pedro, em São Paulo. "Eu não prestava atenção na cortina do palco. Hoje eu sei que ela é vermelha e tem um detalhe em dourado."

Marcelo é um dos brasileiros com algum tipo de deficiência que estão experimentando os recursos de acessibilidade. Esses serviços começam a ser oferecidos, ainda de forma tímida, nos teatros e cinemas do Brasil. Pelas contas de Lívia Maria Villela de Mello Motta, profissional com doutorado que desde 1999 se dedica à audiodescrição de espetáculos, já ocorreram no Brasil cerca de 50 eventos com algum tipo de suporte para deficientes. Houve desfile de moda, espetáculos de dança, simpósios e congressos. No Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, a ser celebrado em 3 de dezembro, será inaugurado no Memorial da América Latina, em São Paulo, o Memorial da Inclusão, uma exposição permanente com mais de 300 fotos e documentos que contam a luta pelos direitos das pessoas com qualquer deficiência. A exposição terá recursos sonoros e textos em braille para permitir o acesso de deficientes visuais e para ajudar as pessoas que não são deficientes a perceber, por alguns minutos, como é o mundo vivido pelos cegos.

Tudo isso, claro, é muito recente. A primeira ópera no país com audiodescrição, Sansão e Dalila, foi apresentada em 2007 no Festival de Manaus, no Amazonas, organizada pelo Instituto Vivo. De lá para cá, sobretudo no segundo semestre deste ano, a tecnologia para atender pessoas com deficiência tem sido usada com mais frequência (leia o quadro). Os recursos mais comuns no Brasil são audiodescrição, legenda oculta (o mesmo closed caption da TV) e interpretação da linguagem de sinais. Eles já foram usados nas peças O doente imaginário, de Molière, e Vestido de noiva, de Nélson Rodrigues, entre várias outras, apresentadas no Teatro Vivo, em São Paulo. Agora estão sendo oferecidos na peça A música segunda, de Marguerite Duras, que fica em cartaz no mesmo teatro até o dia 13 de dezembro.

No mundo da ópera, houve apresentações com legendas e audiodescrição das óperas Cavalleria Rusticana e O barbeiro de Sevilha - cujas últimas apresentações vão ocorrer na terça-feira e na quinta-feira desta semana, no Theatro São Pedro, de São Paulo. A companhia carioca Os Inclusos e os Sisos, nascida em 2003 como braço da ONG Escola de Gente, foi pioneira no Brasil em agregar em seus espetáculos todos os recursos possíveis para atender às necessidades das pessoas com deficiência. Sua peça mais recente, Ninguém mais vai ser bonzinho, apresenta vários tipos de preconceito, inclusive os que sofre uma garota com síndrome de Down.

Mostras de filmes nacionais e internacionais estão entrando na mesma onda: a quarta edição do Festival de Direitos Humanos na América do Sul, ocorrida no início do mês em 16 capitais brasileiras, apresentou boa parte de seus filmes com acessibilidade às pessoas com deficiência. A Mostra de Cinema Nacional Legendado & Audiodescrito completou cinco anos em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, estendeu sua programação para São Paulo em outubro. Na internet, o YouTube anunciou recentemente legendas automáticas e o site brasileiro Blindtube tem produzido filmes com audiodescrição.

"As iniciativas estão no começo, mas podemos dizer que neste semestre elas explodiram", diz Marines Cristina Almeida, de 43 anos, que tem deficiência visual e coordena o grupo de ação cultural da Laramara, Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual. "Desde julho, já fui à ópera, ao cinema e assisti a DVDs em casa, graças à audiodescrição." Ela conta que o filme mais chocante a que pôde assistir até agora foi Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles. "Há cenas muito fortes." Marines era uma das nove deficientes que compareceram à sessão de Meu nome não é Johnny no CCBB de São Paulo, exibida no início do mês com legenda oculta e audiodescrição. A seu lado, estava Rui Antonio do Nascimento, de 49 anos, que perdeu a visão há dois anos por causa do diabetes. Era a primeira vez que ele via um filme audiodescrito. Nascimento faz uma avaliação peculiar dessa primeira experiência. "É como se fosse um sonho", diz ele. "Os atores falam, o narrador conta e você põe na mente apenas o que deseja ver."

Quem precisa de apoio.

Número de pessoas com deficiência no Brasil:

5 milhões de pessoas têm deficiência física.

2,4 milhões com deficiência intelectual *.

2 milhões com deficiência visual (cegas e com baixa visão).

1,6 milhão com deficiência auditiva.

* Esse número provavelmente inclui pessoas com doenças mentais.
Fonte: Censo de 2000 do IBGE.

Embora use tecnologia, a audiodescrição é, essencialmente, um trabalho humano. Com o folheto da ópera na mão, o profissional da audiodescrição acompanha os ensaios do espetáculo para identificar os momentos em que ocorrem no palco detalhes que são compreendidos apenas com os olhos - um gesto, uma mudança de expressão facial, o próprio cenário, o figurino, a iluminação. Tudo o que é inacessível para os cegos. Essas explicações pontuais têm de ser acomodadas, na ópera, com a tradução do texto italiano para o português - e com alguma dose de emoção. "Eu acompanho, em média, quatro ensaios para chegar ao texto final da audiodescrição", diz Lívia Maria. Quando se trata de um filme, a explicação da cena já está gravada. Na ópera e no teatro, é feita ao vivo. Lembra, pelas circunstâncias, o trabalho de tradução simultânea - os profissionais ficam numa cabine, geralmente um casal, e cada um deles se encarrega de parte dos personagens.

Os meios eletrônicos, como a televisão, têm de levar o trabalho de apoio aos deficientes para dentro das casas. Leonardo Gleison Ferreira, de 22 anos, nasceu cego. Aos 4 anos sofreu um transplante de córnea, enxergou por 11 anos e então perdeu a visão em definitivo. Não consegue se informar pela televisão. Um exemplo: está sendo veiculada uma propaganda sobre a TV digital. "O locutor diz assim: ‘Se você mora em uma das cidades listadas aqui, já pode ter acesso à programação digital’", afirma Ferreira. "Mas ele não diz quais são as cidades, apenas as mostra na tela. Como nós, cegos, podemos nos informar desse jeito?"

Foto da plateia.
PRIMEIRA VEZ
Nascimento assiste a um filme em São Paulo, sua primeira experiência com audiodescrição. "Foi como um sonho", diz ele.

Em 2005, a Associação Brasileira de Normas Técnicas publicou a Norma Brasileira nº 15.290, que estabelece os parâmetros técnicos para os serviços de acessibilidade em TVs, filmes e teatros brasileiros. Foi o primeiro passo. Em 2006, o Ministério das Comunicações publicou a portaria 310, que determina que as emissoras de TV ofereçam, a princípio, duas horas semanais de programação para deficientes. O serviço deveria começar em 2008, mas não foi bem assim. A legenda oculta e a Língua Brasileira de Sinais (Libras) entraram em vigor. A audiodescrição, não. Três novas portarias já foram publicadas pelo Ministério das Comunicações, adiando a obrigatoriedade. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) diz que falta mão de obra para produção da audiodescrição. E há também uma questão de tecnologia. "Com a norma, as empresas teriam de investir em equipamento analógico, que se tornará obsoleto com a chegada do digital, previsto para se consolidar até 2016", diz Édio Azevedo, advogado do Ministério das Comunicações. "Tanto para os deficientes visuais quanto para os empresários, teria sido melhor que (a obrigatoriedade do recurso da audiodescrição) não tivesse casado com a chegada da TV digital." Uma nova minuta de portaria sobre o tema está prevista para entrar em consulta pública a partir desta semana, no site do Ministério das Comunicações. O novo prazo de debate expirará em fevereiro de 2010.

O Ministério da Cultura, por sua vez, vai anunciar em 2010 um Prêmio Arte e Cultura Inclusivas, que pretende contemplar trabalhos de artistas com deficiência. Serão selecionados 31 projetos e os prêmios somam R$ 385 mil. "Avançamos consideravelmente nesses últimos anos", diz Izabel Maior, subsecretária Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, de 55 anos, que tem deficiência física há 33 por causa de uma lesão medular. Enquanto isso, o mercado de trabalho para audiodescritores cresce e será criado em 2010 um curso de pós-gradução na Universidade de São Paulo para estudar as possibilidades da audiodescrição.

"A demanda pela audiodescrição é muito maior do que se imagina", afirma a audiodescritora Lívia Maria. "Ela beneficia idosos, analfabetos e disléxicos." Lívia Maria é formada em letras e doutora em linguística aplicada com uma tese sobre ensino e aprendizado para cegos e pessoas com pouca visão. Ela é responsável pela formação voluntária de profissionais de audiodescrição do Instituto Vivo. Mais de 50 já foram formados. Entre eles estão Carlos Eduardo Marçal e Marli Nunes, que trabalharam na ópera Pagliacci, apresentada em São Paulo há três semanas. O espetáculo pôs à prova a concentração e a capacidade de improvisação da dupla. Num dado momento, a protagonista da ópera foi enfeitar a mesa com um castiçal e ele caiu, inesperadamente. Quem podia enxergar riu. Marli logo explicou o que acontecia para seus ouvintes deficientes. "É gratificante", diz ela. "Ao final do espetáculo eles nos dizem coisas assim: 'Onde estão os nossos olhos? Quero conhecê-los'." O que pode ser melhor do que isso?

Fonte: Portal da Revista Época.
Data: 26 de novembro de 2009.

 

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