Tenho 25 anos e nasci com glaucoma; meu quadro hoje é menos d 5% de visão no olho esquerdo e uma prótese no lugar do direito. Trabalho como cantora, compositora, arranjadora e professora de canto.
Com a sorte de ter nascido numa família bastante envolvida com a arte, desde muito cedo fui descobrindo minha grande paixão pela música, pelo desenho, pela dança, pelo teatro e pelos livros. Só que com estes, ao contrário dos instrumentos musicais, dos papeis em branco e canetinhas coloridas, dos espaços livres para dançar, das encenações teatrais, minha relação era estranha, bem diferente...
Meu insólito prazer era pegar um livro, tocá-lo, sentir as diferentes texturas de capa e páginas, cheirá-lo e inspirar profundamente, folheá-lo para ouvir o som gostoso do roçar do papel e, por fim, olhar a cinzenta massa ladeada de branco, que era o texto para minha visão turva, e ficar brincando de ler, tentando adivinhar, de acordo com o tamanho do bloco de texto, as palavras, as frases, o sentido que havia ali, inventando conteúdo para aquela forma vazia para mim. É comum, crianças que ainda não chegaram na alfabetização brincarem disso também, mas eu continuei fazendo isso...
Minha mãe, com o coração partido, quando me via nessa “brincadeira”, oferecia-se pra então me ler aquela história; aliás, foi principalmente dela que dependi durante todo o período escolar, além de outros familiares, amigos e colegas de classe. Muitos dão graças aos livros, à leitura e ao conhecimento ao terminar um curso; eu, antes de tudo, devo a conclusão dos meus ensinos fundamental e médio à solidariedade e aos remotos tempinhos lvres dos amigos, pais e irmã.
Enfim a faculdade; durante os 7 períodos do curso de jornalismo, muito esforço e insistência para continuar, com uma leitura precária de um volume de livros cada vez maior esigido pelo curso. No princípio do sétimo período, o penúltimo, minha principal ledora, minha mãe, teve de se ocupar com outras questões familiares, de maior prioridade no momento, e o oitavo período do curso então abandonado, o que mais exigia exaustivas e sucessivas leituras por conta da famosa monografia, espera por mim há 2 anos...
A cidade interiorana, com poucos recursos e informação, torna para a pessoa com deficiência visual ainda mais difícil a aventura do estudo.
Junto com aquela estranha paixão por tocar, sentir, cheirar, folhear os livros, que persiste até hoje, cresceu também, à medida em que as pessoas, com seus olhos e voz, permitiam-me o acesso ao conteúdo dos livros, um amor ainda maior pela literatura; e atualmente, além de compor música e letra, escrevo poemas, crônicas, contos, romances e começo a me aventurar em gêneros como roteiro de cinema e teatro.
Apesar de hoje, depois de ter ido buscar recursos na capital, onde conquistei minha autonomia digital e tenho acesso a ledores voluntários e a livros falados, são evidentes minhas dificuldades na escrita por conta da precariedade da leitura;
Só escreve bem quem lê muito; e me falta sempre um pedaço... E, por mais que eu me esforce, a leitura que me é permitida de acordo com o tempo hábil do outro ou pela Internet, restritamente, devido à limitada lista de obras disponíveis, não é o suficiente para quem quer sempre mais, pra quem quer sempre crescer, pra quem quer alcançar seus objetivos, pra quem quer se informar, e formar, pra quem quer ter voz ativa e ser produtivo na sociedade, pra quem quer dividir idéias, expressar-se, interagir com o mundo, pra quem quer e precisa se comunicar, participar, nunca é o suficiente para mim, e para tantos outros que, de repente, nem tiveram a minha mesma oportunidade de encontrar este espaço para emitir uma opinião, uma queixa, um apelo em forma de depoimento via Internet.
Quem conhece verdadeiramente o valor, o poder do livro, a riqueza dos percursos das palavras, pode dimensionar a angústia que sinto, e que sentem tantos outros nas minhas condições.
Autora: Sara Bentes.
Contato: sarabentes@yahoo.com.br.
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