São Paulo, quinta-feira, 22 de junho de 2017 - 09:03.

Livro Acessível Universal - Página inicial [1].

Universidade e deficiência física - Paraplegia - Regina Cohen.

Regina Cohen.
[ D ]

Nossa consultora:

Meu nome é Regina Cohen, tenho 51 anos, sou do Rio de Janeiro, sou arquiteta e estou há muito tempo na vida acadêmica e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU-UFRJ). Doutora em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social (EICOS - UFRJ), mestra em Urbanismo (1999, PROURB - UFRJ), especializada em História da Arte e Arquitetura no Brasil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1990, PUCRJ), pesquisadora associada de assuntos relativos à acessibilidade e desenho universal na FAU/UFRJ, coordenadora do Núcleo Pró-acesso da UFRJ, atualmente, estou desenvolvendo minha pesquisa para Pós-Doutorado em Arquitetura na FAU/UFRJ sobre Acessibilidade de Pessoas com Deficiência aos Museus tombados pelo Patrimônio Histórico Brasileiro.
Contato: reginacohen@terra.com.br

Deficiência, limitações e possibilidades:

Possuo uma deficiência física como consequência de um acidente automobilístico ocorrido há 22 anos, em 1987, quando tive uma lesão medular e hoje me locomovo em cadeira de rodas. A lesão ocorreu na quinta e sexta vértebras torácicas, um pouco acima da cintura. Do seio para baixo não sinto meu corpo devido a lesão e não possuo movimentos voluntários. Dentre as limitações físicas concretas posso dizer que está em primeiro lugar a impossibilidade de ficar em pé e de andar, mas também perdi os controles esfincterianos da bexiga e do intestino, tendo que utilizar de outros recursos para fazer as necessidades fisiológicas. Costumo dizer que superei muitas das minhas limitações e hoje faço coisas que nem imaginava ser capaz quando adquiri minha deficiência. Trabalho feito uma louca na universidade, dou aula, apresento trabalhos e palestras, coordeno um grupo de pesquisa sobre acessibilidade - o Núcleo Pró-Acesso da UFRJ, passeio, vou à praia que adoro e também costumo viajar bastante. Com isto quero dizer que apesar de minhas limitações físicas, sou uma excelente profissional e posso desenvolver muitas atividades em muitas áreas da vida, desde que a sociedade e, principalmente os espaços urbanos, possibilitem a minha vida ativa e a minha inclusão.

Sonhos e percurso acadêmico:

Bom, eu já tinha cursado a universidade antes de ocorrer o acidente de carro e já era uma arquiteta formada. Passei por uma fase bastante dolorosa de reabilitação e apenas quatro anos depois de adquirir minha deficiência, resolvi ir à luta. Fiz um Curso de Especialização em História da Arte e Arquitetura na Pontifícia Universidade Católica do RJ, montei um escritório de arquitetura com uma amiga, mas depois senti a necessidade e responsabilidade de melhorar as condições de acessibilidade aos espaços para as pessoas com deficiência, como eu. Aí, retornei à vida acadêmica na UFRJ para fazer meu mestrado e doutorado e pude perceber como as universidades estavam muito mal preparadas para me receber.

Minha banca de mestrado em urbanismo contou como um de seus membros o arquiteto e então Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro Luis Paulo Conde, o que fez com que a diretora da Faculdade e o reitor da Universidade fossem assistir minha defesa. Depois disso, muitos amigos me apoiaram na criação do Núcleo Pró-Acesso, que foi pioneiro no país e hoje conta com o reconhecimento nacional e internacional, tendo ganhado alguns prêmios no Brasil e no exterior. Mas não foi nada fácil. No início foi muita "ralação" e briga para mostrar como espaços inacessíveis costumam reforçar e cristalizar a deficiência por serem eles próprios deficientes.

Apesar de ter conquistado o respeito da comunidade acadêmica, posso parodiar o ditado que diz que "santo de casa não faz milagres", pois minha universidade até hoje não está adaptada para atender qualquer tipo de deficiência. Foi movida uma ação na justiça pelo não cumprimento do Decreto 5296 de 2004 e o reitor finalmente decidiu atender ao Ministério Público para adaptar os espaços da UFRJ. Estamos partindo de mais um extenso Diagnóstico das Condições de Acessibilidade para a prática de tornar nossa universidade verdadeiramente inclusiva. O processo começou há pouco tempo. Estamos traçando diretrizes e fazendo editais de licitação para as obras, dando cursos e palestras para as empresas licitantes e vamos em frente para tentar mudar nossa realidade.

A minha volta à universidade não foi nada fácil, participei de concursos para entrar no mestrado e no doutorado e até hoje encontro muitas barreiras de acessibilidade que, inclusive, tem afetado muito a minha saúde. Posso citar a falta de banheiro adaptado, quando às vezes passo longas horas na universidade. Há pouco tempo, quando exatamente saia de uma reunião para tratar da acessibilidade, levei um tremendo tombo da minha cadeira de rodas e fraturei minha perna, o que causou o maior transtorno. Atualmente estamos trabalhando para mudar este quadro, mas ainda encontramos muita resistência e a falta de mudança de postura e cultura. Apesar disso tudo, sou muito bem recebida por todos na UFRJ, desde os meus alunos, bolsistas, colegas de trabalho e funcionários da instituição. Acho que consegui quebrar o preconceito inicial que existia com relação à minha deficiência e hoje sou vista com mais naturalidade e não como uma pessoa diferente. Foi um respeito conquistado ao longo do tempo e do meu trabalho.

Problemas enfrentados e soluções propostas:

As primeiras dificuldades e barreiras foram muitas e quase todas, desde as físicas até as sociais e culturais. Sempre havia um olhar diferente e um grande estranhamento com relação à minha deficiência e à presença da minha cadeira de rodas. Às vezes era meio camuflado. Nem sempre foi assim. Fui muito bem recebida pela minha Orientadora de Mestrado, a Cristiane, com quem cursei Arquitetura quando ainda não era deficiente. O pessoal do mestrado e muitos professores e funcionários também me tratavam muito bem e com naturalidade. Em alguns momentos os espaços tiveram que ser conquistados.

Em termos práticos, minha primeira providência foi criar coragem para voltar a dirigir porque a Faculdade de Arquitetura da UFRJ fica muito longe do Centro, na Cidade Universitária da Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro e não existiam ônibus adaptados. Depois tive que brigar e brigo até hoje por algumas melhorias que são muito lentas em uma universidade pública. Com o tempo também fui mostrando que era capaz, fui conhecendo muitas pessoas e me incluindo naturalmente.

Virtudes de uma Universidade acessível:

Para que as universidades se tornem mais acessíveis e amigáveis às pessoas com deficiência física (cadeirantes) é importante melhorar o acesso ao sistema de transportes para chegar à universidade, criar vagas especiais de estacionamento, adaptar banheiros, lanchonetes, refeitórios, bibliotecas, auditórios e outros espaços acadêmicos. Melhorar também o acesso às salas de aula, que no meu caso, além do quadro negro e das carteiras, mesas e cadeiras, envolve em algumas salas o acesso às pranchetas onde são desenvolvidos os projetos de arquiteturas. Em algumas destas salas também existem desníveis que precisam ser eliminados, sem falar nos tablados para os professores que são inacessíveis. Nunca consegui utilizar salas assim.

Atualmente estamos iniciando o processo de eliminação das barreiras físicas e fazendo projetos de adaptação para as unidades da UFRJ, mas as barreiras atitudinais são as mais difíceis de serem eliminadas. Depois de tudo que falei, seria de se supor que com todo este trabalho ao longo de muitos anos, houve uma mudança de mentalidade, o que não é verdade. Está sendo elaborado um Plano Diretor UFRJ 2020 com ações espetaculares e de primeiro mundo. Quando soube da primeira apresentação do plano para a comunidade acadêmica, cujo tema era mobilidade e acessibilidade, fui lá para assistir. Nós do Núcleo Pró-Acesso e do Núcleo Interdisciplinar de Acessibilidade (NIA) ficamos estarrecidos por não terem convocado as pessoas com deficiência para participar deste processo, quando todos os setores da sociedade estão sendo chamados.

A mobilidade e a acessibilidade a que se referiram em uma apresentação de cerca de uma hora, dizia respeito aos transportes ultra-modernos à ligação da Cidade Universitária com o resto da cidade. Bem lá no final de uma belíssima apresentação, me viram e disseram que as pessoas com deficiência também seriam contempladas. Quem sabe isto não ocorra, como sempre, depois de uma lista de muitas outras questões a serem resolvidas no campus e na Universidade. Quero com isso dizer que as atitudes e mentalidades ainda não mudaram para melhor, incorporando a acessibilidade e o desenho universal como parte natural e espontânea do processo, mas como um aditivo que, talvez, virá depois.

Quanto aos administradores de nossas universidades, cabe ressaltar que qualquer mudança só ocorrerá se eles possuírem vontade política e assumirem seus papéis como gestores de instituições que não apenas formam profissionais, mas também cidadãos cientes de suas responsabilidades sociais. A inclusão, no meu entender, passa primeiramente por aí: pela formação e pela educação que tenha como um de seus princípios a idéia da diversidade.

Mensagem aos colegas com a mesma deficiência:

A única mensagem seria para não desistirem nunca de seus ideais por causa da deficiência. Ingressar em uma universidade, participar dela, nela aprender e permanecer e de lá sair formado ainda não é muito fácil no Brasil, apesar de já termos melhorado bastante. Nós com deficiência, seja ela qual for, devemos brigar por nossos direitos já conquistados e não desistir nunca. Estar na universidade em igualdade de condições faz parte desta busca e deste processo. Não estamos precisando de esmolas ou apenas de comida (parodiando aquela música): "a gente quer comida, diversão, cultura, educação, trabalho e arte, a gente quer sair para toda parte".

 

Relatos e informações de nossos consultores.

 

Voltar ao topo da página.

Copyright © 2008 Livro Acessível.
Todos os direitos reservados.